A aura epiléptica: quando o corpo avisa que uma crise pode acontecer
Sinais que podem antecipar uma crise epiléptica: entenda as fases da epilepsia
A epilepsia se manifesta em fases, e compreender esse processo ajuda a reduzir medo e desinformação. Antes de uma crise convulsiva propriamente dita, o corpo pode emitir sinais importantes.
Antes da crise: os sintomas prodrômicos
Algumas pessoas relatam uma fase anterior chamada pródromo, que pode surgir horas ou até dias antes da crise. Esse período é marcado por sintomas como confusão, ansiedade, irritabilidade, dor de cabeça, tremores e alterações de humor. Cerca de 20% das pessoas com epilepsia vivenciam essa fase, que não é considerada parte da crise em si, mas pode funcionar como um alerta de que algo está por vir.¹
O início da crise: quando os sintomas neurológicos aparecem
Muitas pessoas descrevem sintomas específicos que surgem logo antes ou no início de uma crise. Tradicionalmente chamados de "aura", esses sintomas são hoje compreendidos pela ciência médica como o início real da crise epiléptica — especificamente, uma crise focal consciente, segundo a classificação atual da Liga Internacional Contra a Epilepsia (ILAE).2-3
Diferentemente do pródromo, esses sintomas têm um padrão rápido, muitas vezes repetitivo, e estão diretamente relacionados à região do cérebro onde a atividade elétrica anormal começa. Nesse momento, a pessoa ainda mantém a consciência e pode perceber o que está acontecendo.2-3
De acordo com dados clínicos, cerca de 31% a 39% das pessoas com epilepsia relatam apresentar esses sinais iniciais, sendo mais comuns em epilepsias focais.4
Quais são os sintomas mais comuns?
Os sintomas variam conforme a região cerebral envolvida e podem incluir:
● Tontura e visão turva;4
● Cheiros estranhos ou desagradáveis; 4
● Sensação de déjà vu (sensação de familiaridade com uma pessoa, lugar ou coisa sem tê-la vivenciado antes); 4
● Jamais vu (sensação de estranheza em relação a uma pessoa, lugar ou coisa, apesar de já tê-la experimentado antes); 4
● Zumbidos ou sons inexistentes; 4
● Náusea ou desconforto abdominal; 4
● Dormência ou formigamento; 4
● Contrações sutis nos braços ou pernas; 4
● Sensação extracorporal; 4
● Emoções intensas e repentinas, como medo, alegria ou tristeza.4
Em alguns casos, a crise permanece restrita a essa fase inicial. Em outros, pode se espalhar para outras áreas do cérebro em segundos ou minutos, evoluindo para uma crise mais ampla, com possível comprometimento da consciência.3-4
Durante a crise
Se a atividade elétrica se intensifica, a pessoa entra na fase ictal, a mais reconhecida como “convulsão”. Podem ocorrer rigidez muscular, tremores, confusão, dificuldade para falar, movimentos involuntários, perda de controle da bexiga ou lapsos de memória. Geralmente, as crises duram entre 30 segundos e 2 minutos. Caso ultrapasse 5 minutos, é fundamental procurar atendimento médico imediato.3
Depois da crise: a recuperação
Após o episódio, vem a fase pós-ictal, período de recuperação que pode durar minutos, horas ou até dias. É comum haver sonolência, confusão, dor de cabeça, fraqueza muscular, náusea e dificuldade para encontrar palavras.5
Por que é importante reconhecer esses sinais?
Identificar os sintomas que antecedem ou iniciam uma crise pode ajudar a pessoa com epilepsia e seus familiares a:
• Buscar um local seguro antes que a crise se intensifique; 1-5
• Evitar situações de risco (como dirigir ou operar máquinas); 1-5
• Comunicar melhor os sintomas ao médico, auxiliando no diagnóstico e tratamento; 1-5
• Reduzir a ansiedade ao compreender melhor o que está acontecendo; 1-5
Se você ou alguém próximo apresenta esses sintomas, converse com um neurologista para uma avaliação adequada.
Referências:
1. Besag FMC, Vasey MJ. Prodrome in epilepsy. Epilepsy Behav. 2018;83:219–233.
2. Fisher RS, Cross JH, French JA, Higurashi N, Hirsch E, Jansen FE, et al. Operational classification of seizure types by the International League Against Epilepsy: position paper of the ILAE Commission for Classification and Terminology. Epilepsia. 2017;58(4):522–530.
3. Asadi-Pooya AA, Brigo F, Lattanzi S, Blümcke I. Adult epilepsy. Lancet. 2023;402(10399):412–424.
4. Nakken KO, Solaas MH, Kjeldsen MJ, Friis ML, Pellock JM, Corey LA. The occurrence and characteristics of auras in a large epilepsy cohort. Acta Neurol Scand. 2009;119(2):88–93.
5. Subota A, Khan S, Josephson CB, Jette N, Tellez-Zenteno JF. Signs and symptoms of the postictal period in epilepsy: a systematic review and meta-analysis. Epilepsy Behav. 2019;94:243–251.